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Jovem com a ‘pior dor do mundo’ revela histórico de abuso e agressões antes de diagnóstico

Decisão veio após entender que para tratar a dor física da neuralgia do trigêmeo, primeiro era necessário tratar a dor psíquica – causada por situações vividas na infância e na adolescência, que marcaram sua vida adulta. Aos 27 anos, Carolina Arruda decidiu contar sobre uma série de abusos, ameaças e agressões vividas antes de ser diagnosticada com a neuralgia do trigêmeo, considerada pela medicina como a doença com a “pior dor do mundo”.
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A decisão veio após entender que para tratar a dor física, primeiro era necessário tratar a dor psíquica – causada por situações vividas na infância e na adolescência, que marcaram sua vida adulta.
A dor é um peso que pode moldar nossas vidas de formas inesperadas.
Carolina Arruda tem neuralgia do trigêmeo e vai implantar eletrodos que podem bloquear transmissão da ‘pior dor do mundo’ ao cérebro
Arquivo pessoal/Carolina Arruda
Ao g1, a jovem relatou que os dois casos sofridos não chegaram a ser registrados na polícia, devido ao medo de expor a situação na época. Hoje, ela espera que esse desabafo seja um incentivo a outras mulheres que possam ter passado por situações similares.
“Eu quero que as mulheres falem, que não se calem. Eu guardei isso por muitos anos e foi muito prejudicial pra mim”, contou.
As marcas da infância
Carolina Arruda, que tem neuralgia do trigêmeo, revelou ter sido abusada dos 6 aos 12 anos de idade
Carolina Arruda/Arquivo Pessoal
Até os 6 anos, Carolina Arruda era uma criança brincalhona, criativa e que sonhava em ser professora. No entanto, o cenário mudou quando ela foi abusada sexualmente por um familiar dentro da própria casa.
Segundo a jovem, ela era ameaçada constantemente, o que a levou a acreditar que sua segurança e a de sua família dependiam do silêncio.
“Ele me batia, ele me enforcava e ele me ameaçou de morte várias vezes se eu contasse para alguém. Ele ameaçou matar minha mãe, minha avó. […] Eu era criança, eu não entendia nada, então eu realmente achei que ele faria uma coisa daquela. E, com o tempo, eu passei a achar que o que ele estava fazendo comigo era minha culpa”, relembra.
A dor emocional era tão intensa que, aos poucos, Carolina se isolou e não queria mais estar próxima da própria família. E os abusos se estenderam até os 12 anos de idade.
A chegada da adolescência
Aos 13 anos, a saúde de Carolina começou a dar sinais. “Tinha muitas dores de cabeça, muitos desmaios por conta da dor,” ela explica. A busca por um diagnóstico foi longa e sem sucesso, porém, em determinado momento, as dores diminuíram até cessar.
Foi nessa mesma idade que Carolina começou a namorar. O relacionamento trouxe uma nova onda de abusos, desta vez físicos e psicológicos.
“Ele era competidor de academia e ele era muito forte. E eu lembro que ele segurava no meu pescoço com uma mão só e olhava bem dentro do meu olho e ia apertando, até que eu perdesse as forças. A hora que eu perdia as forças na perna, ele parava”, ela descreve.
O relacionamento durou quatro anos, marcados por violência constante. Até que as 16 anos, Carolina engravidou.
“Quando eu contei para ele que estava grávida, ele disse que eu tinha que abortar”, lembra. “Foi a primeira vez que consegui enfrentá-lo. Disse que ia cuidar da minha filha.”
“Ele disse que não estava pronto para ser pai e eu disse: ‘eu não tô pronta pra ser mãe, mas se veio um neném é porque a gente tem condições de cuidar, então eu vou cuidar da minha filha’. E ele não quis, depois nunca mais tocou no assunto”, conta.
Luta contra a neuralgia do trigêmeo
Durante a gravidez, Carolina Arruda contraiu dengue e de repente se viu tendo crises severas de dor.
“Eu lembro da minha primeira crise. Eu lembro que eu estava sentada no sofá da casa da minha avó. Meu pai estava do meu lado. E na hora me deu um choque muito forte. E nesse choque da crise, eu só conseguia gritar. Eu batia as pernas, esperneava e gritava, gritava, gritava muito. Depois que a crise foi embora, eu não conseguia explicar pro meu pai o que eu tinha sentido naquele momento”, relata.
A busca por um diagnóstico correto continuou por quatro anos, com muitos médicos descartando a possibilidade de neuralgia do trigêmeo bilateral devido à idade dela. Isso porque pesquisas apontam que a doença é mais comum em pessoas com mais de 50 anos e, na época, ela tinha 16.
Carolina conta que no final da gravidez descobriu que o namorado da época a traía. Além disso, ele tinha engravidado outra pessoa, mas preferia se manter afastado da jovem que gerava a filha deles.
“Assim que minha filha nasceu, eu achei que ele ia vir atrás, eu achei que ele ia ser um pai, que ia ficar feliz, mas não. Ele não queria estar ali e falava pra mim que não queria fazer parte da vida dela. Então, eu fiquei mais uma vez desamparada”, conta.
“Eu senti de novo aquela Carolina lá da infância, despreparada para lutar, para lidar com todas aquelas emoções que estavam em mim e eu não conseguia entender o que estava acontecendo com a minha vida”.
Com o tempo, a jovem foi ficando cada vez mais doente e tendo crises excruciantes de dor. Ela relata que chegava a desmaiar e, em algumas situações, derrubava a filha recém-nascida, o que aos poucos se tornou perigoso.
“Minha avó, que é a bisavó dela, conversou comigo e propôs de criar minha filha e quando eu tivesse bem o suficiente, eu voltaria para buscá-la e eu aceitei. Então, mais uma vez, eu tinha perdido a minha vida, praticamente. Eu me vi sozinha de novo, me vi solitária de novo, porque eu perdi minha filha. Eu sei que foi um combinado, eu sei que foi o meu melhor, mas eu senti culpa. Culpa por não poder mudar a minha realidade naquele momento. Culpa ter estado tão doente a ponto de não poder cuidar da minha filha. E eu lembrava de como eu me sentia lá quando eu era criança, totalmente desamparada”, completa.
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Jovem cogitou suicídio assistido na Suíça
Carolina Arruda, de 27 anos, é natural de São Lourenço, no Sul de Minas, e mora em Bambuí, no Centro-Oeste. Ela é estudante de medicina veterinária, casada há três anos e mãe de uma menina de 10 anos. A jovem começou a sentir as dores aos 16 anos, quando estava grávida e se recuperava de dengue.
A dor e o desgaste de Carolina com a doença são tão intensos, que fizeram ela tomar a decisão para pôr fim ao sofrimento. Ela iniciou uma campanha na internet para conseguir recursos financeiros e ser submetida ao suicídio assistido na Suíça.
Carolina Arruda tem 27 anos quer ser submetida à eutanásia na Suíça
Carolina Arruda/Divulgação
Carolina foi internada no dia 8 de julho na Santa Casa de Alfenas. Nesta primeira internação, a estudante ficou no hospital durante duas semanas. No dia 22 de julho, após receber uma alta temporária, ela relatou ter notado redução na frequência e duração das crises de dor.
A jovem voltou a ser internada na sexta-feira (26) para realizar os cuidados pré-operatórios referentes ao implante de eletrodos. A cirurgia, realizada no sábado (27), foi considerada bem sucedida. Os cuidados pós-operatórios envolvem usar um colar cervical e ficar sem falar por pelo menos cinco dias.
O que é a neuralgia do trigêmeo?
A neuralgia do trigêmeo, também conhecida como a “doença do suicídio”, e comparada a choques elétricos e até a facadas. O trigêmeo é um dos maiores nervos do corpo humano. Ele leva esse nome porque se divide em três ramos:
o ramo oftálmico;
o ramo maxilar, que acompanha o maxilar superior;
o ramo mandibular, que acompanha a mandíbula ou maxilar inferior.
Ele é um nervo sensitivo, ou seja, que controla as sensações que se espalham pelo rosto. Permite, por exemplo, que as pessoas sintam o toque, uma picada e a dor no rosto.
Segundo os especialistas, a dor causada pela doença é uma das piores do mundo. Ela não é constante fora das crises, mas é disparada por alguns gatilhos que, na verdade, fazem parte da vida cotidiana como falar, mastigar, o toque durante a escovação ou barbear e até com a brisa do vento sobre o rosto.
A dor é incapacitante. Ou seja, impede que a pessoa consiga fazer atividades simples do dia a dia.
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